Olhou para as suas acomodações já desarrumadas. Deu falta de cada uma das coisas que ele havia lhe pedido emprestado. Não sabia ao certo, se pelas coisas em si, ou por que queria mais uma desculpa para culpa-lo por mais esta falta.
Pegou uma taça de vinho. Sentiu seus pelos arrepiarem. No fundo ela sabia que era medo. Naquele mesmo instante, havia também, logo abaixo do pescoço, ou entre sua garganta e seu peito, não sabia definir direito, uma pressão dolorida, e ao mesmo tempo tão amena, quase sentia prazer com aquela melancolia saudosa.
Olhou para um espaço vazio na cômoda, entre o espelho e os diversos cremes e perfumes amontoados, antes, havia uma foto deles ali no meio daquelas coisas todas, era sempre o que ficava no lugar, era sempre o que dava certa ordem no seu todo desordenado.
Sugou o primeiro gole, e este não desceu tão livre, ia lhe dentro da garganta se enroscando, como se fosse toda aquela verdade que ela protestava em aceitar. Seus olhos vertiginaram, e sentiu seus dedos amortecerem, pigarreou, acendeu um cigarro, agora olhava fixamente para um nada, talvez fosse apenas um mal estar mental, ela precisava esquentar-se urgentemente por dentro. Tudo parecia agora tão frio.
Não queria pensar que toda aquela ausência, dolorida e úmida, também lhe trazia determinada alivio, se sentia suja a cada momento em que refletia sobre isto. Lembrou-se do seu vinho novamente e seus olhos, pela primeira vez em dias, se encheram d’água, com as costas das mãos enxugou aquelas rebeldes lagrimas, e outra vez a sensação de alivio, ela não havia secado, ela ainda sentia...
Então encheu seu peito com todo ar que poderia, suspirou profundamente, agora era tudo ou nada, quando todo este ar fosse posto fora, poderia derrubar tudo, ela poderia por fim, desfalecer, se entregar a toda aquela letargia, ela estava só e pulsante, todo o ar saiu de si e lhe deixou uma sensação de vazio, faltava um quadro, faltava um perfume, faltavam tantas coisas agora, ela já nem pensava mais nisto. Então entornou mais alguns goles, e ficou inerte sobre a cama, como anestesiada para a operação que seria feita mais tarde. Esperando sonolenta, entorpecida...
Meio acordada, agarrada a um fio minúsculo de determinada razão. Com num arroubo desavisado fechou os olhos e apenas suspirou, agora sem mais nenhuma emoção. Estava vencida.
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