Eu não me lembro das flores. Recordo-me sempre dos carros, do asfalto, dos faróis...
Daquela música irritante nas padarias e lojas. Das árvores que mais se parecem prédios,
dos prédios que me lembram aqueles monstros gigantes que dão a impressão de que a qualquer momento vão criar pernas e sair caminhando... Ordenando o caos e fazendo as pessoas despertarem. É triste não me lembrar das flores, elas não aparecem aqui nem por desenhos nas paredes, e eu gosto tanto de flores... nem nas artes abstratas, nem na cabeleiras das moças, nem nos canteiros esquecidos e derrubados.
Eu lembro das pessoas que passam e nunca se olham, se esgueiram tortas e incômodas, pra nunca se tocarem, para de repente nem ter que se olharem...
Ai vejo algumas que se conhecem, se abraçam e se beijam, mas continuam correndo, não podem parar, ao final é como se nunca tivessem se visto, como se a vida não tivesse sido um pouco interrompida...
Tudo vai ruindo e cessando. Pessoas de mármore que saíram do asfalto se consumindo, se estripando, mas quem é que nota? Não é cena de um filme, ou a realidade virou cinema.
Eu vejo o sol se abrigando por entre os prédios cinzas. Eu queria mesmo era ter as flores... Eu já nem sei mais se eu as vi.
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