Entre

E ai puxe a cadeira, sente nas paredes, aqui tudo é permitido, menos palavrão, pelo menos você não, de resto fique a vontade...

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A oração de Clarice

"Não, não devia pedir mais vida.
Por enquanto era perigoso.
Ajoelhou-se trêmula junto da cama pois era assim que se rezava e disse baixo, severo, triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor: alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar não é morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que eu me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma tambem incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.

"depois eu dormi melhor"

a noite parece que fica um pouco mais dificil

Faz tanto tempo que não escrevo nada... acho que quando o coração se cala, deve ser por que algo está se consertando... é tenso não saber por onde se está indo, é triste dizer adeus ou perceber que algo importante chegou ao fim... meu coração se calou não por resignação, mas por que precisa de tempo... embora o mundo não tenha parado pra que ele se restituísse... eu já vi isto antes, este verso não é meu... mas o sentido é o mesmo... eu não quero ser forte hoje...

sábado, 19 de junho de 2010

As cidades

Não devemos conversar...
Não há altitude aqui
Vemos a cidade, as nuvens
E não há altitude
Tudo é uníssono
As ruas vivem disparadas
A vida circula
O tudo converge, dispersa, desagrega
Mas ninguém se nota
A senhora na foto dos murais
Tinha os olhos mais verdes do mundo
Roupas sujas, mãos pretas e vazias
Eu poderia sentir seu coração
E seus pés descalços
Qual seria a sensação?
Ela pega uma nota
Ela pega minha vida
E se perde na cidade
Vestida de trapos
E devemos conversar?
O som disparado, circula
Converge, dispensa, despenca da lixeira humana
E ninguém nota...
A foto há de se perder
O rio a cobrir as ruas, os corpos de perdem, não flutuam mais
A cidade imunda,
Não há céu só altitudes
E quanto aos olhos verdes?
Que por milagre eu vi...
Estou suspensa
Finjo eternas sensações a fim de manter-me inédita
A expressão ainda me dói,
as ciladas do destino,
me fazem pender devagar
Não estou pronta.
Então pairo como uma folha caiando
Estou pesada, mesmo assim vôo em câmera lenta
Como pode ser este momento a sair de mim?
Tão sublime, e tão meu...
Sinto o vento bater em mim
Meu coração está envelhecendo
Olhe a folha caindo mansamente
O tempo é enlouquecedor
Ele não para em nossas mãos, ele vai apurado,
como a areia seca que não se prende e foge...
ele abranda as grades da vida
Nos levando como folhas
Eu vou bêbada, trançando pernas e braços
E me embaraço, pra lua canto doces lamentos
nos delírios noturnos de quem vai em mim pelo caminho
E ando e passo e tento
Quero esquecer-te, porém fantasio
E minha mente não diferencia o prazer da lembrança
Com ilusão de esperar
Vou me lançando entre as formas medonhas que me amedrontam
Passo por elas com extremos calafrios, e tremo de medo
É como se uma brisa gelada me cobrisse os seios
É você indo embora. Como pode?
Quero chorar
Pois não me advinha
Eu não suporto mais estar ausente dos teus olhos.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

saia rodada

Eu tenho uma saia rodada... eu acho que ele gosta
Vai me ver dançar mas nem bate palmas
Me olha e me olha.... pra mim é pior que tapa
Depois vai embora e não diz nada
Fico procurando por ele e todo mundo vê
Que ele me olha e me olha
Não sorri e quando o encaro finge que não estou ali
Maltrata que maltrata
Me engana de lado
Se desvia
Ele vem só pra me ver dançar
Não diz coisa alguma
Balança a cabeça e os braços
Acena pra umas
Maltrata e me vê chorosa
Me olha que olha
Mas finge que não me vê...

sábado, 12 de junho de 2010

não me importo

Será que ele ainda se lembra? Eu não devia estar me importando
Na verdade nem estou...
Tenho algumas dúvidas, estou negociando
É um bocado estúpido fazer este tipo de coisa
Vou demorar mais ainda pra esquecer,
eu estou brigando comigo, sei que não vou procurá-lo
mas como posso deixar assim que me esqueça?
Eu não me importo
Vou deixar-lhe uma carta quem, sabe...
Acho que não devo...
Vou lhe escrever um poema
Não, eu não me importo...quero mais é que me esqueça
Se é que ainda se lembra
Se vai me esquecer, tudo bem, é que eu ainda não consigo
Mas não importa, mesmo que esteja fingindo
Vou ouvir sua voz, vou sentir teu cheiro
Isto não deveria mesmo me importar
Então me recuso a me lembrar também...
Eu não entendo só esta coisa salgada que corre na minha boca
Acho que estou mentindo, por que não me importo...


Vou me deitar sonhar um pouco contigo...