Devido a minha terrível mania de largar as coisas pela metade, resolvi escrever contos. Uma amiga me disse que no ápice da coisa você pode terminar e deixar ao expectador a possibilidade de imaginar o final. Deixando a minha cara de pau a parte, gostaria, primeiro, dizer o que quero com estas palavras. Estava eu estes dias em minha nova casa, em minha nova vida, solteiríssima afinal, sem ninguém literalmente, só eu de alma encarnada habitando pelos meus pequeninos cômodos. Percebi que desde de pequenina, coisa que diga-se de passagem não mudou com o tempo, apresento sintomas de uma doença terrivel, que denominei: solteirisse crônica.
Daqui a pouco apresento por que considero a minha solteirrisse algo crônico. Então vamos por partes.
Deixe me contar da vez que pensei em me casar, e isto não tem muito tempo. Mas vejam só que coisa, eu quase nunca via o sujeito, tipo coisa premeditada, amor a distancia, esta coisa toda, e deu no que deu, um dia ele desapareceu de vez, e com ele minha idéia de casório. Não que eu não tenha ficado triste, mas me valho do seguinte ditado: a males que vem pra bem. Eu sou adepta convicta de um "como diz o outro", seja ele qual for, gosto bastante daquele por exemplo “nem cristo agradou a todos” acho um dos mais inteligentes já lançados até agora, embora nada tenha a ver com o tom da conversa, mas como sou bem confusa...detalhe: sempre que não sei onde quero chegar termino a frase com reticências, e isto vale pra tudo na minha vida.
Bem mas deixemos pra la minhas embolações - eu queria dizer enrolações, mas o computador está dizendo que está errado - e vamos ao causo. Ou não, vida de solteiro te permite isto, você nunca tem muita coisa pendente, então fica divagando, eu por exemplo adoro falar sozinha, até pensei em desenhar no filtro d’agua uma boca e dois olhos, tipo o amigo cara de coco do Robinson Crusoé, aqui demonstro claramente minha tendência, uma das minhas historias preferidas, um cara que se perde e vive sozinho em uma ilha, se eu não for uma louca obsessiva, tenho um profundo gosto pelo isolamento, não completo, preciso de favores de vez enquando, dos que eu não vou explicar agora, por que não seria conveniente.
Assim deste modo, fui me afastando aos poucos, até começar a viver realmente sozinha. Fazendo um retrospecto do passado, nunca escrevi muito bem, apresentei sempre uma escrita medíocre, lamentosa, chorosa, percebia em mim uma tendência a depressão. Agora, vivendo sozinha, não mudou muito a qualidade de minha escrita, mas vejo-me escrevendo sem aquela angustia que me perseguia, sintoma único e malcriado, concluo que a solidão me fez bem. Difícil admitir este tipo de coisa. Mas estou tão bem internamente e isto tem se feito algo comum, e não espero que muitas pessoas entendam, alias não me importa muito.
Bem este tipo de inapetência, quase sempre tem lados extremamente negativos, mas as vezes sou um pouco como a Pollyana. Diga-se de passagem um romance deveras tendencioso, mas como não estou aqui para fazer criticas, digo que sou meio Pollyana por que vejo sempre uma possibilidade. Não sou muito boa no tal do jogo do contente, mas tenho feito meus esforços. Isto tem me evitado momentos indigestos e diminuído consideravelmente incômodos desnecessários, principelmente em relação aqueles enquadramentos que tanto perseguimos enquanto na adolescência. Percebi-me adulta quando estas coisas (entre outras é claro, como pagamentos de contas, nome no SPC, e enfim) já não faziam mais tanta diferença, ou seja, não havia mais complexos pela falta de atitudes socialmente aceitas.
Minha escrita confesso, passou a representar meu estado de espírito, que agora apesar de ter ficado meio de porco, está muito mais feliz e mais resoluto em si.
Nem sei por que fiquei perpassada neste instalo momentâneo de consciência. Mas é como eu digo, quando se escreve sem muito compromisso, e também por que não tenho muito com quem conversar, (a não ser com o meu filtro, que mais se parece com um anão de cabeça grande) o fato é que estou gostando disto, o que por sinal é muito perigoso, pois tenho a tendência ao exagero em tudo.
Depois de tantas exprobações meio sem sentido vou falando aos poucos sobre capítulos dos meus dias solitários, de hábitos que vamos adquirindo, as vezes muito engraçados, e nem sempre muito sádios, mas estou pensando que tudo que é muito sadio geralmente é chato.
Quero parar por aqui. Mas tenho mais um parágrafo a acrescentar, quero contar sobre minha primeira noite. Estava eu, minha mãe, minha irmã, e uma amiga (não achem que não conheço regras gramaticais, mas me dou o direito a odiar um pouco as regras, e pensem o que quiserem) em minha nova casa, tudo no lugar, tudo cheiroso, cuidados de mãe como sabem, não há nada igual, roupinha lavada, dobrada, comidinha feita, tipo lance familiar mesmo, até pensei em morar novamente ao meu lar familial (também reconheço a linguagem biológica, sei que aqui não caberia, mas tenho liberdade poética pra usar o que quero, embora não seja aqui um poema). Mas voltando ao assunto, as horas foram se chegando, e as pessoas consequentemente indo para suas casas, e eu ficando a cada momento mais só. Fui para uma lan house tentar um diálogo com qualquer desconhecido, pois não queria por lei nenhuma ficar sozinha. Fiquei lá nestas conversas soltas até fechar a loja, ai não tinha mais jeito era eu e eu mesma, não importa em que posição na frase.
Voltei para meu espaço físico, meu lar, minha casa, olha que bonito, eu ia da sala para o quarto, da cozinha para o banheiro, fumando cigarro, e pronunciando bem debilmente “porra tudo isto é meu”, posso fumar, beber, comer, f... qualquer verbo que me caiba, os que precisam de sujeitos e os que não, tipo ninguém faz nada, não tem muito sentido, mas pra mim significava, liberdade, o cumulo dela, minhas contas, minha geladeira, minhas contas, minha linha telefônica, minhas contas, minha vida colorida, minha sala vermelha, que minha mãe criticou, mas nem pra isto liguei era minha sala, meus enfeites, minha macumba, como ela diz, era tudo meu. Nesta noite já estava totalmente adaptada, o que para qualquer sujeito em posse de suas habilidades mentais saudáveis seria no mínimo estranho.
Mas agora o sono já deu, e minha indolência me permite terminar por aqui, como diria um cara que passei a admirar em certo sentido, lendo sua coluna sempre que posso, um tal de José Simão, que se denomina o esculhambador-geral da república (adoro isto) é mole, é mole, por hoje só amanhã!
Nenhum comentário:
Postar um comentário